131 anos do Corpo de Bombeiros Militar do RS é tema de homenagem no TJMRS

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O Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul realizou sessão solene em homenagem aos 131 anos do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul. Foi a primeira vez que a Corte promoveu uma solenidade dedicada à corporação. O evento teve transmissão ao vivo pelo canal institucional do Tribunal no YouTube.  Na plateia, acompanharam a solenidade membros do Conselho Superior, oficiais e praças do CBMRS.

O desembargador militar Amilcar Macedo falou em nome do Tribunal na solenidade. Em sua manifestação, destacou o papel histórico dos bombeiros na proteção da sociedade. “A civilização não se mede apenas pelas leis ou pelas instituições, mas também pela existência daqueles que, quando tudo parece perdido, ainda escolhem servir”, afirmou, ressaltando que a homenagem representa um compromisso institucional de memória e gratidão.

O comandante-geral do CBMRS, coronel Ricardo Mattei Santos, agradeceu a iniciativa do Tribunal e destacou a trajetória histórica da corporação. Segundo ele, a evolução institucional dos bombeiros gaúchos foi construída ao longo do tempo e consolidada com a autonomia administrativa alcançada há oito anos. Mattei também sobre o ambiente de cooperação entre as corporações durante as enchentes de 2024, quando o Rio Grande do Sul recebeu apoio de bombeiros de todas as unidades federativas, mobilizando equipes de 26 estados.

No encerramento da sessão, o presidente do TJMRS, desembargador militar Rodrigo Mohr, destacou o caráter essencial da corporação para a sociedade e relembrou os motivos que levaram à realização da homenagem. Ao concluir, dedicou esta sessão inédita à memória do major André da Silva Vasconcellos, bombeiro falecido em acidente de trânsito em 2013 no litoral do Rio Grande do Sul.

Presentes ainda o subcomandante-geral dos Bombeiros, coronel Alexandre Sório Nunes, o corregedor-geral da Brigada militar, coronel Rodrigo Assis Brasil Ramos Aro, e o corregedor-geral dos Bombeiros Marcelo Carvalho Soares  .  O coronel da reserva Sergio Pastl também prestigiou a solenidade.  Pelo Tribunal,  os desembargadores militares Sergio Brum, Paulo Mendes e Gabriela John, além do procurador de Justiça junto à Justiça Militar, Alexandre Lipp João.


Abaixo, a íntegra da manifestação do orador da solenidade em nome do TJMRS, desembargador militar Amilcar Macedo.


Discurso Aniversario CBMRS 2026

 

Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Desembargadores,
Autoridades civis e militares,
Senhoras e Senhores,

 

Conta a mitologia grega que Prometeu desafiou os deuses para entregar o fogo aos homens. Ao fazê-lo, ofereceu à humanidade aquilo que permitiria o progresso, a técnica e a vida em comunidade. Mas entregou também um risco permanente, pois o mesmo fogo que aquece e ilumina é capaz de destruir tudo aquilo que o ser humano constrói. Desde então, cada civilização precisou criar guardiões capazes de enfrentar essa força ambígua da natureza, protegendo a coletividade contra aquilo que ameaça sua própria existência.

 

Séculos depois, essa antiga narrativa ganha forma concreta sempre que uma sirene rompe o silêncio de uma cidade. Porque, quando o fogo ameaça, quando a água avança ou quando o perigo se impõe, alguém precisa caminhar na direção oposta ao medo. É nesse instante que surge a figura do bombeiro, não como personagem extraordinário, mas como expressão organizada da solidariedade humana.

 

No final do século XIX, Porto Alegre crescia rapidamente. A maior parte das casas era de madeira, a iluminação das ruas era fraca e um incêndio podia se transformar rapidamente em tragédia. Bastava uma faísca ou um pequeno descuido para que o fogo se espalhasse pela cidade e ameaçasse quarteirões inteiros. Foi nesse cenário que, em 1º de março de 1895, dezessete homens atenderam ao que poderíamos chamar de um silencioso chamado da história. Tinham poucos recursos, equipamentos bastante rudimentares e carroças puxadas por cavalos para enfrentar o fogo. Ainda assim, decidiram agir. Nascia ali a Companhia de Bombeiros, embrião do atual Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul. Naquele momento, certamente não imaginavam que estavam dando origem a uma das instituições mais respeitadas do Estado. Sabiam apenas de uma coisa simples e essencial: alguém precisava fazer alguma coisa.

 

Ali começava uma trajetória que, por mais de um século, estaria integrada à Brigada Militar do Rio Grande do Sul, compartilhando valores militares, disciplina, hierarquia e espírito de corpo. Essa convivência institucional formou gerações de profissionais moldados pela ideia de prontidão permanente, pela noção de que o serviço público não admite hesitação diante da emergência. A autonomia administrativa conquistada em 2014 não rompeu esse passado comum; representou, antes, o reconhecimento da maturidade institucional de uma corporação cuja identidade já estava profundamente enraizada na confiança pública.

 

Ao longo do tempo, o Corpo de Bombeiros Militar acompanhou cada etapa da história gaúcha. Esteve presente nos incêndios urbanos que marcaram o crescimento das cidades, nos salvamentos em rodovias e rios, nas operações de busca em áreas rurais, nas ações de defesa civil em períodos de estiagem e enchentes e na construção de uma cultura preventiva que hoje integra políticas públicas de segurança e proteção social.

 

A atuação da corporação revela uma dimensão muitas vezes invisível: a prevenção silenciosa. Vistorias técnicas, análise de edificações, orientação comunitária e educação preventiva salvam vidas antes mesmo que o risco se concretize. Trata-se de uma atuação que dialoga com a própria ideia moderna de Estado protetor, que não apenas reage ao desastre, mas trabalha para evitá-lo.

 

Nos momentos extremos, contudo, a missão revela sua face mais dramática. As enchentes históricas de 2024 inscreveram-se definitivamente na memória coletiva do Rio Grande do Sul. Enquanto cidades inteiras eram tomadas pelas águas, bombeiros militares avançavam em embarcações improvisadas, atravessando correntes perigosas, retirando famílias de telhados, carregando crianças e idosos nos braços. Em meio ao caos, tornaram-se o rosto visível da esperança e da presença concreta do Estado quando tudo parecia ruir.

 

Hannah Arendt escreveu que o mundo comum só permanece humano quando alguém assume responsabilidade por ele. O bombeiro militar encarna essa responsabilidade concreta. Sua missão não é apenas reagir à tragédia, mas preservar as condições mínimas para que a vida coletiva continue possível.

Aristóteles ensinava que a coragem é a virtude que se manifesta quando o ser humano enfrenta o perigo guiado pela razão e pelo dever. Essa definição encontra expressão diária na atividade do bombeiro, cuja profissão consiste precisamente em dirigir-se ao lugar do risco quando todos os demais procuram afastar-se.

 

Norberto Bobbio lembrava que a legitimidade do Estado democrático se mede pela proteção efetiva dos direitos fundamentais. Antes de qualquer outro, está o direito à vida. Cada operação de resgate, cada combate a incêndio, cada atendimento emergencial representa o Estado cumprindo sua promessa mais essencial.

 

Também Max Weber observava que as instituições públicas sobrevivem quando combinam racionalidade organizacional e ética da responsabilidade. O Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul representa essa síntese rara: técnica e humanidade atuando simultaneamente.

 

E, como ensinou Emmanuel Levinas, a ética nasce no encontro com o outro vulnerável. O bombeiro militar vive permanentemente esse encontro. Cada salvamento é, antes de tudo, uma resposta humana à fragilidade humana.

 

Por isso, a história do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul não se resume a registros oficiais ou datas comemorativas. Ela está escrita em milhares de histórias silenciosas: portas arrombadas para salvar vidas, madrugadas de busca sob chuva intensa, retornos discretos ao quartel depois de missões que mudaram destinos.

 

Ao longo de mais de um século, a corporação modernizou-se, ampliou sua presença territorial, incorporou tecnologia, especialização e formação científica avançada. Contudo, permaneceu fiel ao espírito daqueles dezessete pioneiros de 1895: servir sem hesitação.

Se Prometeu, na mitologia, trouxe o fogo à humanidade, os bombeiros militares assumiram, na vida real, a tarefa permanente de impedir que ele apague aquilo que nos define como sociedade: a confiança, a solidariedade e a própria esperança.

 

Celebrar o aniversário do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul é reconhecer uma instituição que não aparece apenas nos momentos de glória, mas sobretudo nos instantes de angústia coletiva, quando a presença humana vale mais do que qualquer discurso.

 

Porque há um instante singular em toda tragédia: aquele momento em que alguém, cercado pelo medo, percebe ao longe o som de uma sirene. Nesse instante, o desespero cede lugar à expectativa. Não chegou apenas um caminhão. Chegou o socorro. Chegou o Estado. Chegou alguém disposto a arriscar a própria vida para salvar outra.

 

E talvez seja essa a verdadeira grandeza do Corpo de Bombeiros Militar: lembrar-nos, todos os dias, que a civilização não se mede apenas por suas leis ou instituições, mas pela existência daqueles que, quando tudo parece perdido, ainda escolhem servir.

 

Que esta sessão plenária registre, portanto, não apenas uma homenagem formal, mas um compromisso de memória e gratidão.

 

Porque enquanto houver um bombeiro disposto a avançar, nenhuma comunidade estará completamente sozinha diante do perigo.

 

Muito obrigado.




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